A tatuagem
Dilermando era um homem sério, de pouca fala e muito reservado. A única fraqueza de Dilermando eram as tatuagens, não dele; as dos outros. Era um apaixonado por aquelas figuras coloridas enormes que tomavam grande parte do corpo. Mas imagina só se ele iria fazer uma tatuagem naquele corpo feio e desengonçado?! Não. Quisera ter a coragem... mas não...não tinha, até que no dia do seu aniversário acordou com um pensamento lhe atormentando. E se finalmente fizesse a tão sonhada figura nas costas, bem grande e colorida? Sabe aquele dragão chinês imenso colorido, cheio de curvas e movimentos revoltos? Sim, aquele mesmo, o grande dragão, até porque era o signo dele no horóscopo chinês. Nascera no ano do dragão, 1964. Nada mais justo que dar-se um presente que ele realmente gostaria de ganhar, ou fazer; uma Tatoo bem lindona, bem colorida.
Dirigiu-se ao segundo andar daquele prédio antigo, cheio de salas de ofícios diversos. Só relojoeiros tinha uns quatro, mas a última sala era a do Tatuador que se denominava como todos Tatoo, na verdade o tatuador se chamava Wanderley, mas seu nome artístico era Deley; Tatoo Deley. Criatura impressionante. Tinha o corpo todo coberto das mais diversas figuras um resto de barba abaixo do queixo, algo esfiapado e ralo na base do rosto que não podia ser chamado de cavanhaque, metade da cabeça raspada mostrava mais figuras, alguns piercing dos mais diversos modelos estavam distribuídos pelo corpo semi nu, alguns brincos e alargadores imensos que fariam inveja aos índios botocudos.
Quando Dilermando entrou na pequena sala, ficou hipnotizado por aquele mundo que ele tanto queria fazer parte. Parou no centro do ambiente olhando demoradamente para as fotografias e recortes de revistas onde corpos tatuados eram destaque e cobriam as paredes. Uma maca e uma cadeira reclinável faziam parte do mobiliário. O homem estranho, profissional do desenho em corpos, aguardava pacientemente que Dilermando dissesse a que veio.
- Você é que é o artista? O tatuador?
- Falou!
-E quanto custa, é por desenho ou você cobra por hora?
- Por desenho...
- Eu quero esse desenho aqui...
E apontou uma foto de um dragão tatuado nas costas de alguém
- Tá certo, vai fazer agora? Então tira a camisa e deita ai na maca porque o trabalho é demorado e se “tu for dos fracos pra dor”, vai demorar mais... Vai ter que fazer em mais de uma sessão, esse desenho é grande.
- Não, tudo bem, eu aguento bem...
Deitou-se de costas para cima na maca após tirar a camisa e fechou os olhos.
Quase quatro semanas depois, já com o dragão em fase final de cicatrização ele começou a ter pesadelos esquisitos. Logo após pegar no sono, ele sonhava que o dragão pulava de suas costas e ficava diante da porta, bem no meio do quarto sacudindo sua cauda escamosa e brilhante enquanto abria aquela boca de inferno e soltava fogo pelas ventas. Um horror. E o pior de tudo era o olhar apaixonado do bichão que o hipnotizava até que ele ficasse bem quieto e parasse de gritar, afinal eles tinham que firmar aquela amizade, pois agora eles habitavam um só corpo...








